sexta-feira, maio 28, 2010

Crônicas da Vida.

Dia comum, andarilho como fora toda sua vida, bendito fosse a qualidade de sua saúde, passeava aos bosques todos os dias. Sem trepidar em momento algum, caminhava sem fim, como se nada o deixasse mais feliz que aquilo.
Entre rumores de que era esquizofrênico ou de que era apenas um maratonista desiludido, caminhava por todo o bosque, todos os dias, de segunda a segunda, no mesmo horário, que era por volta do dia todo. Quando cansado, apenas colocava suas pernas para cima, em uma das centenas de banquetas que haviam nos inúmeros cantos dos bosques, tempo pequeno para o tanto que andava. Levantava saltitante e voltava a sua corrida.
Todos que passavam e conheciam a figura, sempre se deparavam com o desprezo, nunca nem um bom dia lhe foi dado. Perguntado se queria algo menos ainda, mas todos os conheciam. Seu nome ninguém nunca soube, apelidos, teve vários de Forest Gump à autorama, devido ao fato de nunca sair de sua rota.
Em uma manhã, passava ao bosque e me deparei com uma cena inédita. O velho andarilho, embora de aparência jovem, era velho por suas caminhadas, conversava aos risos com uma jovem e sorridente moça. Conversaram por volta de meia hora. Sem querer atrapalhar, mas muito curioso, resolvi conversar com essa jovem, que fazia a risos ao sair, dos seus olhos encherem de água. Quando me aproximei fui recebido muito bem por ela e quando a indaguei sobre o que conversava, ela me disse: "Nada demais!" e saiu sorridente. Voltando os olhos para o rapaz, que corria novamente, fiquei encucado, afinal de contas, nunca havia visto aquilo antes.
Voltei para meu dia comum, mas com uma certeza, que conversaria com aquele rapaz, no outro dia.
Na manhã seguinte, levantei-me cedo, coloquei minhas roupas e fui para o bosque, o rapaz, já corria, quando me aproximei, ele me recebeu com um belo sorriso, perguntei se ele podia parar um pouco, ele em um só movimento, colocou-se do meu lado e disse: "Por que não caminhas junto?" Então resolvi, apenas uma volta no bosque, não seria mais que o necessário, no começo da trajetória reparei que nele haviam coisas desgastadas, começando dos seus tênis velhos ao seu shorts rasgado, passando pela blusa antiga, perguntei então: "O senhor não tem casa?". Sem parar ele olhou e respondeu: "O mundo é minha casa." Retruquei: "Por que não caminhas o mundo então." Recebi então uma resposta sincera: "Por que o bosque é igual ao mundo, se passa de tudo, se faz de tudo, pessoas vem e vão, como no mundo lá fora, se aqui, que todos me conhecem eu vivo na solidão, em um mundo enorme serei apenas um vão. Não que me parta o coração, viver na solidão, apenas não quero ser um andarilho, que chamado de louco fui e companhia tive não, isso tudo em um bosque, imagine no mundão." "Mas e a menina de ontem, quem era? Sorriam tão felizes." "Como disse, o bosque é o mundo, e nele também existem pessoas que fazem nos sentirmos vivos e continuar, por mais que pareça loucura, nossa vida de aventura e são elas que me fazem sentir-me cada vez mais vivo!". Em um momento não me dei conta, mas andarilhos, somos nós, por todo o mundo.

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